Tabaco perde ritmo após cinco safras de receitas recordes

Olá Jornal
setembro02/ 2026

Após cinco safras consecutivas de crescimento, a produção de tabaco registrou redução na receita gerada aos produtores na safra 2025/2026. Os dados consolidados pela Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e apresentados na quarta-feira, 26, apontam uma movimentação de R$ 12,83 bilhões com a produção nos três estados do Sul do Brasil.

O resultado representa uma redução de 11,9%, ou cerca de R$ 1,74 bilhão, em relação à safra 2024/2025, quando a receita alcançou R$ 14,57 bilhões, o maior valor da série. Mesmo com a retração, a safra 2025/2026 registra a segunda maior receita da série histórica apresentada pela Afubra, mantendo o tabaco em um patamar elevado de geração de renda aos produtores.

O resultado também supera os R$ 11,78 bilhões contabilizados em 2023/2024 e mantém a receita do setor acima dos R$ 10 bilhões pelo quarto ciclo consecutivo. A retração, portanto, interrompe a sequência de recordes, mas não representa uma perda estrutural da importância econômica da cultura.

A trajetória de crescimento havia começado após a safra 2019/2020, quando a receita foi de R$ 5,60 bilhões. Desde então, os valores avançaram para R$ 6,62 bilhões em 2020/2021, R$ 9,53 bilhões em 2021/2022, R$ 10,97 bilhões em 2022/2023, R$ 11,78 bilhões em 2023/2024 e R$ 14,57 bilhões em 2024/2025.

Mesmo com a redução registrada no último ciclo, a receita de 2025/2026 é mais que o dobro da registrada em 2015/2016, quando o setor movimentou R$ 5,23 bilhões. O desempenho evidencia a valorização da atividade ao longo da última década, embora o cenário atual indique uma mudança em relação ao ritmo de crescimento observado nas safras anteriores.

CRISE DO AGRO
Para o presidente da Afubra, Marcílio Drescher, o resultado da última safra demonstra que o tabaco, apesar de historicamente apresentar maior capacidade de rentabilidade para as pequenas propriedades, também passou a sentir os efeitos da conjuntura enfrentada pelo agronegócio.

“Nos últimos anos, se falou muito do agro gaúcho, das crises que vem enfrentando, e o tabaco estava um pouco de fora dessa situação toda, porque ainda a lucratividade e as receitas eram maiores do que as despesas. Mas nessa safra se mostrou que a gente entrou junto na crise do agro”, avalia.

Segundo Drescher, em anos anteriores o tabaco conseguiu apresentar maior resistência diante das dificuldades enfrentadas no campo. Ele cita, inclusive, os períodos de enchentes no Rio Grande do Sul, quando a comercialização já havia avançado e os produtores estavam com os recursos da safra.

“É bem verdade que o tabaco sempre conseguiu escapar, inclusive nas enchentes. Já estava comercializado, o produtor já estava com o dinheiro no bolso praticamente, porque era uma safra menor e houve uma agilidade de compra maior. E esse ano impactou bastante”, explica.

ATRATIVIDADE
Mesmo diante da redução das receitas, o presidente da Afubra destaca que o tabaco continua apresentando uma capacidade de geração de renda superior à de diversas outras alternativas disponíveis para os pequenos produtores.

Na avaliação de Drescher, a menor remuneração de outras culturas e as dificuldades econômicas enfrentadas pelo setor agropecuário ajudaram a manter a procura pelo cultivo de tabaco. “Os outros produtos do agro estão, de certa forma, numa precificação menor e com rentabilidade menor do que o tabaco”, afirma.

Esse cenário, segundo ele, também explica a manutenção da área cultivada e o retorno de produtores à atividade. “Todos aqueles que às vezes tinham estrutura de plantar tabaco voltaram a plantar tabaco. Outros aumentaram o plantio do tabaco e persistem nessa cultura”, destaca.

Para Drescher, o tabaco segue tendo um papel importante especialmente para as famílias que dependem de pequenas áreas para geração de renda. “É uma das únicas, dentro de todas, que dava rentabilidade na família de pequenos agricultores”, afirma.
Mesmo com a redução dos valores recebidos na safra 2025/2026, o dirigente entende que a cultura mantém capacidade de sustentar as propriedades. “O tabaco, sim, ainda continua sendo uma cultura que, de certa forma, mesmo mal remunerado às vezes, ainda dá sustentabilidade”, conclui.

FOTO: Willian Oliveira

Olá Jornal