O agronegócio gaúcho começa a dar sinais de recuperação após um período marcado por perdas climáticas, endividamento e dificuldades de acesso ao crédito. A avaliação foi feita pelo presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Domingos Velho Lopes, durante o balanço da entidade no último dia da 49ª Expointer, neste domingo, 6, no Parque Assis Brasil, em Esteio.
Para o dirigente, os resultados registrados ao longo da feira indicam que o setor teria superado o momento mais crítico. “O fundo do poço já passou”, afirmou. A avaliação considera, entre outros fatores, o desempenho da pecuária, a retomada dos negócios e a abertura de novos mercados para os produtos gaúchos.
A 49ª Expointer encerrou com R$ 6,18 bilhões em negócios, alta de 39,8% em relação aos R$ 4,42 bilhões registrados em 2025. O segmento de máquinas e implementos agrícolas respondeu por R$ 5,46 bilhões, enquanto a comercialização de animais alcançou quase R$ 22 milhões, avanço de 21% na comparação com o ano anterior.
Crédito ainda é desafio
Apesar da perspectiva mais positiva, Domingos Velho Lopes ressaltou que a recuperação não significa que os problemas do setor estejam resolvidos. O principal ponto de atenção continua sendo o endividamento rural e a dificuldade de acesso ao crédito.
Segundo balanço apresentado pela Farsul, a renegociação de dívidas alcançou apenas 11,7% do universo estimado dentro das regras da Medida Provisória 1.376/2026. Para o economista-chefe da entidade, Antônio da Luz, o prazo para que a renegociação evitasse impactos mais severos sobre a próxima safra já foi ultrapassado.
“Não podemos deixar de atender e recolocar os nossos colegas produtores rurais, desde a agricultura familiar, permeando os médios e chegando à agricultura empresarial, que estão hoje fora do crédito oficial ou privado em razão do nosso endividamento”, afirmou o presidente da Farsul.
Na avaliação de Domingos, a recuperação dependerá da capacidade de o produtor voltar a investir. O dirigente também criticou o nível das taxas de juros e defendeu maior controle das despesas públicas. Para ele, os juros elevados são consequência do cenário fiscal e acabam dificultando novos investimentos no campo.
Pecuária e mercados internacionais
A pecuária aparece entre os setores que sustentam o cenário mais otimista. Durante a Expointer, foram realizados 1.567 negócios envolvendo animais, coberturas, sêmen, embriões e cotas. A comercialização de animais ficou acima de R$ 21 milhões.
Domingos também destacou a importância da sanidade animal para a manutenção e conquista de mercados. Segundo ele, o Rio Grande do Sul conseguiu demonstrar capacidade de resposta diante do foco de gripe aviária registrado no Estado, mantendo as exportações após a adoção de medidas sanitárias e comunicação transparente.
O presidente da Farsul ainda citou as rodadas de negócios internacionais realizadas durante a Expointer. Compradores de diferentes países participaram das atividades, com negociações que já movimentaram US$ 2,4 milhões e expectativa de superar US$ 3 milhões.
Para o dirigente, a internacionalização é um dos caminhos para ampliar o valor agregado da produção gaúcha. Ele defendeu a aproximação entre entidades como Senar, Sebrae e Apex para ampliar a presença dos produtos do Estado no mercado internacional.
Clima exige atenção
Outro ponto abordado no balanço foi a influência do clima sobre a próxima safra. Domingos destacou que a previsão de atuação do fenômeno El Niño exige atenção especial dos produtores gaúchos.
Segundo ele, as janelas de plantio tendem a ficar mais estreitas, exigindo planejamento. Também recomendou cautela na utilização de áreas de várzea próximas aos rios, especialmente para o arroz, diante do risco de novos episódios de inundação.
Por outro lado, o presidente da Farsul ponderou que, historicamente, o El Niño pode favorecer as culturas de sequeiro no Rio Grande do Sul, por proporcionar uma distribuição de chuvas mais favorável durante o verão. A expectativa, porém, é de uma oferta nacional menor, enquanto o Estado pode apresentar desempenho relativamente melhor.
Apesar dos desafios, o balanço da Farsul reforça a percepção de que o agronegócio gaúcho começa a deixar para trás o período mais crítico. O resultado da Expointer, na avaliação da entidade, representa um sinal de reação, embora a retomada dependa da solução do endividamento e da recuperação da capacidade de investimento dos produtores.
