Projeto Antes da Ruptura propõe identificar sinais de conflitos antes que se agravem

Olá Jornal
outubro28/ 2026

Reconhecer os sinais de desgaste nas relações humanas antes que os conflitos cheguem a consequências graves é a proposta do projeto Antes da Ruptura, apresentado pelo delegado Felipe Staub Cano em uma conversa promovida pelo Olá Jornal na tarde desta quarta-feira, 21, durante a 41ª Oktoberfest de Santa Cruz do Sul. A iniciativa, desenvolvida em parceria com o defensor público Igor Menini da Silva, busca ampliar as ações preventivas e estimular a conscientização sobre comportamentos que podem evoluir para situações de violência.

A partir da experiência na linha de frente da segurança pública e do sistema de Justiça, os idealizadores identificaram a necessidade de trabalhar não apenas na resposta aos problemas já instalados, mas também nas circunstâncias que antecedem os desfechos. Segundo Cano, ao longo da carreira, estima ter acompanhado mais de 12 mil ocorrências envolvendo violência doméstica.

“Esses desfechos trágicos começam com pequenas rupturas”, destacou o delegado durante o encontro. A avaliação é de que conflitos familiares, relacionamentos que se deterioram e situações de violência não surgem necessariamente de forma repentina. Muitas vezes, são precedidos por desentendimentos, ressentimentos e comportamentos que se acumulam ao longo do tempo.
O projeto surgiu justamente da inquietação dos profissionais diante da repetição desses casos. Para Cano, embora existam mecanismos legais de proteção e responsabilização, ainda é necessário ampliar as ferramentas que permitam às pessoas reconhecer os ciclos de violência e agir antes que as situações se agravem.

PREVENÇÃO
Embora a violência doméstica seja uma das principais frentes de atuação, a proposta do Antes da Ruptura abrange diferentes ambientes de convivência. Durante a conversa, Cano destacou que os sinais de desgaste também podem aparecer nas relações de trabalho, nas amizades, nas famílias e em instituições públicas e privadas.

No ambiente profissional, por exemplo, o afastamento entre colegas, a perda de motivação e os conflitos recorrentes podem indicar dificuldades que merecem atenção. O delegado ressaltou que equipes alinhadas e relações de confiança fazem diferença tanto no serviço público quanto na iniciativa privada.

A iniciativa também aborda os conflitos provocados por divergências de opinião. Em período eleitoral, Cano chamou a atenção para o rompimento de amizades e o afastamento entre familiares em razão de posições políticas diferentes. Para ele, a diversidade de ideias é necessária, mas precisa ser acompanhada pelo respeito e pela capacidade de manter a convivência.

A proposta é incentivar uma mudança de perspectiva, para que os conflitos não sejam percebidos apenas quando já se tornaram insustentáveis. Isso exige atenção aos pequenos sinais, disposição para rever atitudes e capacidade de reconhecer quando uma relação precisa de cuidado ou de intervenção.

CONSCIENTIZAÇÃO
Um dos eixos do projeto é a formação de crianças, adolescentes e lideranças comunitárias. Cano relembrou iniciativas desenvolvidas anteriormente, como a Escola de Líderes, realizada durante quatro anos em escolas de Venâncio Aires, com atividades voltadas à cidadania e à prevenção da violência.

Outra frente é o curso Agentes de Proteção, que capacita lideranças comunitárias para atuar como multiplicadoras de informações sobre violência doméstica. A formação aborda o reconhecimento dos ciclos de violência, a importância das redes de apoio e os caminhos para buscar proteção, incluindo o acesso a registros de ocorrência e medidas protetivas.
O delegado também chamou a atenção para comportamentos abusivos que podem ser confundidos com demonstrações de afeto. O controle sobre roupas, celular e rotina da companheira, assim como o ciúme excessivo, são exemplos de atitudes que precisam ser reconhecidas como sinais de alerta.

A conscientização, segundo Cano, é fundamental para que as pessoas compreendam o que estão vivendo e consigam identificar comportamentos prejudiciais. A educação preventiva também pode ajudar a interromper a reprodução de padrões de violência que, em alguns casos, são naturalizados desde a infância.

ATUAÇÃO
O Antes da Ruptura também pode ser desenvolvido em empresas, prefeituras, órgãos públicos e clubes esportivos. A proposta é adaptar as atividades às necessidades de cada instituição, promovendo reflexões sobre convivência, responsabilidade e prevenção de conflitos.

Durante o encontro, Cano ressaltou que as realidades são diferentes, mas o propósito permanece o mesmo: reconhecer os sinais antes que as rupturas aconteçam. A preparação de lideranças e equipes para identificar situações de fragilidade pode contribuir para relações profissionais mais saudáveis e para a resolução de problemas antes que eles assumam proporções maiores.
A parceria com o Olá Jornal integra esse esforço de ampliar o alcance da iniciativa, levando informações e reflexões à comunidade por meio de conteúdos jornalísticos e encontros presenciais.

AÇÃO COLETIVA
Ao encerrar a conversa, o delegado reforçou que a prevenção da violência e a qualidade das relações humanas não são responsabilidades restritas às instituições de segurança pública. Segundo ele, os comportamentos individuais e os ambientes de convivência produzem efeitos que ultrapassam os limites de cada família, empresa ou comunidade.

“Há aí uma questão de corresponsabilidade de todos nós, de consciência de todos nós, de buscarmos essas prevenções antes que as rupturas aconteçam”, afirmou.

A proposta do Antes da Ruptura é justamente ampliar essa consciência e incentivar atitudes preventivas no cotidiano. A iniciativa parte do entendimento de que reconhecer os sinais, buscar apoio e promover relações mais respeitosas pode ajudar a evitar que conflitos evoluam para situações extremas.

Olá Jornal