Milhares de mãos constroem uma commodity bilionária no Rio Grande do Sul

Olá Jornal
outubro28/ 2026

É das mãos da família Possamai do interior de Venâncio Aires que o tabaco brasileiro ultrapassa fronteiras e ganha mercados internacionais. A propriedade em Vila Arlindo faz parte de uma rede de 68 mil pequenos produtores gaúchos de tabaco que, em áreas produtivas de três hectares e meio em média, elevam a cultura ao segundo produto na pauta de exportação do Rio Grande do Sul, atrás apenas da soja. Essa cultura agrícola está inserida no agronegócio gaúcho, principal motor da economia do Estado, responsável por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB).

Com US$ 3,048 bilhões exportados em 2025, a produção de 287 mil toneladas corresponde a 40% da produção brasileira de tabaco localizada nos três estados do Sul e coloca o estado como o maior exportador global sendo responsável por 90% dos embarques. “Se o Rio Grande do Sul fosse um país, seria um dos principais exportadores de tabaco do mundo, o que mostra realmente a importância desse setor para nós”, afirma o pesquisador e analista internacional do Departamento de Economia e Estatística do Estado (DEEE), Ricardo Leães.

O Brasil é líder global de exportação de tabaco há 33 anos e o segundo maior produtor mundial. Desde o início da série histórica disponibilizada pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex/MDIC), em 1997, as exportações brasileiras de tabaco somam mais de US$ 57 bilhões em receita e ultrapassam 15 milhões de toneladas.

A liderança brasileira é ancorada pela integração entre produtores e indústrias, que garante uma produção sustentável de alta qualidade. E é em solo gaúcho que estão as fábricas que transformam as folhas para ganharem o mundo. “Esse é um ponto muito interessante. O Rio Grande do Sul, além de ser um grande produtor, ele acabou construindo uma rede industrial do beneficiamento e do processamento das folhas de tabaco, o que faz com que os outros grandes estados produtores, Santa Catarina e Paraná, muitas vezes acabem enviando a sua produção para o RS para ela ser exportada depois”, destaca Leães.

Família Possamai se soma a mais de 68 mil produtores que geram o segundo produto mais exportado pelo RS

PARA O MUNDO
Os 110 mil pés de tabaco cultivados em sete hectares por Jair Antônio Possamai, 55 anos, ao lado da esposa Nelvi Solange Kist Possamai, 53 anos, e do filho Felipe André Possamai, 23 anos, na propriedade de 17 hectares, chegará a mais de 100 países que compram a produção nacional, por meio das indústrias de transformação. Em 2025, o crescimento de 11,2% nas exportações do segmento em relação a 2024, representaram aproximadamente 18,1% das exportações da Indústria de Transformação gaúcha.

Além disso, segundo a Federação das Indústria do Rio Grande do Sul (Fiergs), em 2024, o segmento registrou um Valor da Transformação Industrial (VTI) de R$ 6,5 bilhões, equivalente a 4,1% do valor gerado pela Indústria de Transformação gaúcha. O VTI corresponde ao valor acrescentado pela atividade industrial às matérias-primas e aos demais insumos utilizados na produção, constituindo a medida disponível mais próxima da contribuição do segmento para o Produto Interno Bruto (PIB). O estado também concentra 67,4% do VTI da Indústria do Tabaco brasileira, sendo o principal polo industrial do segmento no país.

“Esse é um dos grandes diferenciais da cadeia do tabaco no Rio Grande do Sul: a união da agricultura familiar com uma indústria altamente especializada, que conecta pequenos produtores aos mercados internacionais. Essa organização combina a produção agrícola descentralizada com os ganhos de escala, a tecnologia e a capacidade de processamento da indústria, contribuindo para a competitividade do segmento”, avalia o presidente da Fiergs, Cláudio Bier, ao reforçar a rastreabilidade e o atendimento às especificações dos compradores internacionais.

Entre os principais destinos estão Bélgica, China, Indonésia e Estados Unidos. A Bélgica, importante porta de entrada do tabaco gaúcho no mercado europeu, foi o principal destino registrado, com US$ 678,8 milhões, equivalentes a 22,3% das exportações do segmento em 2025.

A contribuição para a balança comercial também é expressiva. Em 2025, as importações do segmento somaram US$ 78,3 milhões, resultando em um superávit comercial de aproximadamente US$ 2,96 bilhões.

GERAÇÃO DE VALOR E OPORTUNIDADES NO CAMPO

O peso da cadeia produtiva do tabaco na economia gaúcha aparece na geração de valor, na renda, nos empregos e nas divisas também para os municípios. Estimativa da Federação dos Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs) aponta que a venda do tabaco terá impacto superior a R$ 117 milhões de ICMS nos 178 municípios nos quais a cultura está presente, apenas na primeira fase da comercialização, entre o produtor e a indústria. Em um universo de 497 municípios existentes no Estado, pode-se dizer que mais de um terço dos municípios gaúchos contabilizam retorno do tabaco. O retorno líquido deve chegar a R$ 93,6 milhões e, considerando o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), o total superará R$ 117 milhões.

“É uma cadeia que gera empregos, distribui renda, movimenta diferentes setores e projeta o Rio Grande do Sul no mercado internacional. Sua importância ultrapassa os municípios produtores e alcança toda a economia estadual”, avalia o Presidente da Associação dos Municípios Produtores de Tabaco (Amprotabaco), prefeito de Vera Cruz, Gilson Becker.

Em 31 municípios onde o tabaco representa mais de 10% do retorno de ICMS, o setor movimenta cerca de R$ 72 milhões, de um total de R$ 360 milhões. A participação média é de 20%, superando 40% em algumas cidades, o que reforça sua importância para as economias locais. “Estamos falando de recursos que ajudam os municípios a manter serviços essenciais, investir em infraestrutura, qualificar o atendimento à população e atender às demandas das comunidades rurais e urbanas. É importante lembrar que, especialmente nos pequenos municípios, a capacidade de investimento é limitada e cada fonte de receita tem um peso significativo. Uma atividade econômica que contribui para ampliar o retorno de ICMS ajuda a fortalecer a autonomia financeira municipal e a capacidade de resposta do poder público”, afirma o presidente da Federação dos Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), prefeito de Imbé, Luis Henrique Vedovato.

O PEQUENO POTENTE
Além de transformar o minifúndio em uma potência global, o tabaco gera mais valor para a agricultura familiar. Levantamento feito pela Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra), com dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), mostra que o rendimento com o cultivo de tabaco no Sul do Brasil supera aquele registrado com importantes culturas de verão, como a soja e o milho. Os dados apontam que o produtor de tabaco consegue um rendimento de R$ 45.989,85 por hectare. Em relação à soja, que rende ao produtor R$ 5.755,88 por hectare, o lucro é 700% superior. E no milho, com renda de R$ 7.008,80 por hectare, o valor obtido com tabaco fica 556,3% acima.

Os Possamai sabem bem disso. Segundo Jair, a rentabilidade é um dos atributos que faz a família permanecer no campo e na cultura. “É bem mais rentável. Tudo que a minha esposa e a nossa família conquistou foi do tabaco”. Além disso, atravessar fronteiras é motivo de honra para a família que já recebeu visitas de clientes internacionais. “É um orgulho pra nós, porque é uma luta de pequenos produtores”.

A terra herdada do avô da esposa Nelvi chega à quarta geração com o filho Felipe já inserido nas atividades e com a certeza de assumi-la no futuro. “Ele é uma continuação, tanto para nós, para o município, para o Estado e para o país. Todo mundo tem a sua renda em cima da nossa plantação. A gente tem orgulho”, afirma a produtora.

FOTOS: Willian Oliveira

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